domingo, 27 de janeiro de 2013

Memória de longo prazo

No princípio, um traço de memória é flexível, instável, sujeito a correções e sofre alto risco de extinção. Mas, algumas permanecem. Talvez elas não sejam tão estáveis quanto imaginamos, apesar disso, as chamamos de memória de longo prazo.
Quando lembramos de um acontecimento do passado, a história é forçada a reiniciar o processo de consolidação desde o começo, toda vez que é recuperada. Quando memórias consolidadas saem do armazenamento de longo prazo e voltam à consciência, elas readquirem a sua natureza anterior, mutável e instável. Atuando como se tivessem acabado de entrar na memória de trabalho, elas podem necessitar de um reprocessamento para que permaneçam em uma forma duradoura.
Nos períodos relativamente iniciais do pós-aprendizado (que podem corresponder a minutos, horas ou dias), os sistemas de recuperação nos permitem fazer uma reprodução bastante específica e detalhada de determinada memória. Isso pode ser comparado ao modelo da biblioteca. Mas, à medida que o tempo passa, mudamos para um estilo mais parecido com o de Sherlock Holmes. A razão disso é que o transcorrer do tempo acarreta o enfraquecimento inevitável da lembrança de acontecimentos que já estiveram claros e bem detalhados na nossa mente. Em uma tentativa de preencher as lacunas, o cérebro é forçado a se valer de fragmentos parciais, inferências, suposições e, com frequência (o aspecto mais perturbador), de outras memórias que não tem relação com o evento em si. Sua natureza é verdadeiramente de reconstrução, bem parecida com a de um detetive de imaginação fértil. Tudo isso é usado em favor da criação de uma história coerente - algo que o cérebro gosta de fazer, a despeito da realidade. Então, com o tempo, os diversos sistemas de recuperação parecem passar por uma mudança gradual, partindo das reproduções específicas e pormenorizadas para esse quadro mais geral e abstrato.

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